Sertão transcendental


Tarde de verão. O sol cor de abóbora parecia mais brilhante e mais perto que de costume. Um espetáculo de cor, luz e encantamento numa tarde despretensiosa. Momentos de descuidos da natureza.  Até os mais insensíveis se rendem a tanta beleza. Na estrada, o asfalto negro prendia minha atenção obrigatoriamente. Quando, de repente, à margem da estrada, os graúdos mandacarus ora com espinhos, ora sem espinhos se apresentavam imponentes. Porém, rapidamente, ficavam para trás que nem dava tempo observar. A sensação era que eles passavam e não eu.

 Quilômetros de estrada a perder de vista da linha do horizonte pareciam quase nada. Alinhadas, cercas de arame farpado delimitavam a estrada, acompanhadas de estacas rigorosamente uniformes e pintadas de branco. Tudo parecia perfeito, mas não era. Era coisa dos homens! Logo adiante, surgiram vários pés de facheiros espinhosamente bonitos. Para que servem os espinhos?  Nesse momento, reduzi a velocidade para apreciar aquela vegetação da caatinga que me era tão comum.

Foto: xiquexique 

 Os galhos pendentes dos xiquexiques estavam mais bonitos que dantes, desafiando a gravidade de tão pesados.  Em floração, fazia gosto apreciar os seus milhares de espinhos. Inspirava respeito. Ninguém ousava tocá-los, exceto os passarinhos sabedores dos seus segredos. Algumas bagas entreabertas emanavam cheiro de bondade e se ofereciam aos pássaros.  Vermelho por fora e branco por dentro, disfarce habilidoso.

Fui parando o carro devagar. Desci, caminhei e atravessei a cerca de arame e peguei um fruto do xiquexique. Eu queria comer um. Não que eu estivesse com fome, mas eu queria experimentar mesmo assim. Era atrativo. Tinha sabor de infância com direito a saudade! Não me pergunte o porquê! Não sei. Prazer fundamental dos momentos de descuidos. Ardilosamente discreto e carente de ócio contemplativo.  É como pensar no fruto do tamarindeiro e encher a boca d’água! O sabor do pensamento!

 De repente, um enorme gavião planando, pousou próximo a mim na ponta da estaca da cerca. Arisco e sagaz observou-me com certo desdém, alçou voo e, logo adiante, pousou no mandacaru mais alto que tinha e, de asas abertas se sacolejou, mirando atento tudo a sua volta.

 Como ainda era cedo da tarde teimei em caminhar um pouco mais naquele cenário tão sertanejo, tão peculiar. Logo à frente uma pequena alameda de avelós em curva, inspirava artistas. De singela beleza plástica, parecia uma perfeita tela impressionista da pintora Goretti. Cuidado com os avelóses, seu leite pode cegar. Tudo tão seco e tão verde ao mesmo tempo.

Foto: Quipá

Adiante, encontrei quipás floridos e seus discretos, transparentes e cabulosos espinhos. Quem toca-o vai ter trabalho para retirá-los. São pungentes. Várias touceiras de macambiras com as suas enormes hastes florais encravadas na ponta, similares a espigas secas de espinhos, realçavam a paisagem. Pareciam uns tições. Luz a iluminar os caminhos escuros dos andarilhos enigmáticos do sertões.

Mais uma vez, não sei para que servem esses espinhos! Lembrei-me da minha mãe. Ela gostava de enfeitar a casa com flores secas de macambiras pintadas de amarelo ouro, expostas num jarro de barro num canto da sala de estar. Quando em algum lugar eu via as flores da macambira, pensava em levar pra ela. Eita, sertão bonito, cujas lembranças e cenários estão gravados n’alma!

 Encontrei Juazeiros carregados, cheios de frutos e de espinhos também. Ousei deliciar alguns. À frente, encontrei vários pés de rasga-beiços floridos, imaculadamente brancos, exalando aroma de delicada fragrância que me remetia às portas dos jardins encantados dos sertões, onde os espinhos são abençoados, ferram e despertam os incrédulos. Mas, não se engane: são espinhos! 

 Defrontei muitos pés de velame cujas lembranças se reportaram à rua Martins Vieira, num trecho ainda sem calçamento. Ali havia inúmeros pés de velame espalhando cheiro forte de mato, bem perto de onde a gente morava à rua Nossa Senhora de Lourdes. Eu gostava de esfregar suas folhas para ativar seu cheiro forte de erva.

 Muitos pés de Jurema pareciam nos acompanhar pelo caminho. Tem espinhos discretos. Tive outra surpresa: um pequeno tiziu pulava e cantava no fio de arame farpado. Aquela cena era rara! Há muito tempo que eu não via aquele pequeno pássaro negro dos campos sertanejos. Antigamente era comum, hoje não!

  Ali perto, várias catingueiras floridas e perfumadas exalavam  cheiro de alegria e liberdade. Recordo-me que outrora os jumentos traziam da serra do Poço presos em suas cangalhas, dois caçuás cheios de uma centena de ovos de galinha caipira, protegidos entre folhas de catingueira para evitar a quebra. Ficavam assim. Ao serem vendidos, eram retirados com cuidado e as folhas de catingueira eram descartadas gradativamente exalando olor de cheiro de mato.

Alguns metros adiante, sobre o imenso e irregular lajeiro de granito, lagartixas desfilavam para todos os lados sobre rocha quente. Observe: sempre afirmativas! Não consegui ver nenhum calango. Essa variedade de teiídio está praticamente extinta. Nas pequenas fendas do lajeiro, onde se acumulou um pouco de terra, cresceram vários pés de urtiga que habilmente floridas, aguardavam o toque de algum descuidado. Esbarrar nessa planta desencadeia instantaneamente processo de irritação cutânea e coceira compulsiva e agoniada. É preciso respeitar os segredos dos espinhos. Esse é lancinante! 

Foto: Urtiga

Bem próximo, encontrei várias touceiras de “Maria-tua-mãe-morreu!”. Essa é uma plantinha espinhenta da categoria espevitada. Rente ao chão, de folhas bem abertas, ao se pronunciar a frase “Maria-tua-mãe-morreu!”, tocam-se seus ramos e, incontinenti, todas as folhas murcham de tristeza. Assim diz a tradição! E tradição é tradição, não se discute! Mas, voltando ao assunto: para que servem tantos espinhos?

Bem próximo, uma dezena de coroas de frade ostentavam suas cristas escarlates, símbolo de imponência e realeza.  Os espinhos protegem sua beleza e fragilidade. Contemplação, nada mais que isso. Deixe-os. Egoístas, somos estimulados a levá-los para casa.  Adiante, carrapichos acintosos à espreita de desavisados grudam em tudo que tocar suas hastes espinhentas. Lembrei-me das brincadeiras de guerrear com carrapichos. Dá um trabalho danado retirar seus diminutos, insistentes e grudentos espinhos.

Foto: Macambira e vegetação de caatinga

Ando com saudade do sertão. Do sertão real e imaginário. Ando com saudade do sertão. Do sertão além de todos nós. Que tem cheiro do suor sagrado do trabalho. Do cheiro do fogão a lenha, da fumaça branca que ascende, serena e silenciosa. Do frio nas manhãs de inverno. Da neblina no pé da serra...

Clamo: salvemos os sertões! Ainda há tempo. Que a despeito da destruição que homem tem feito, segue adiante, independente da nossa vontade, porque a caatinga, bioma único do nordeste brasileiro, tem missão própria na holística alma sertaneja.

Afirmo: continuo com saudade do sertão! Dele não posso me desvencilhar porque nunca o deixei. E é assim que se desabrocha em negro asfalto uma capoeira densa e palavras são ditas, combinadas, na esperança de que as belezas incomensuráveis da flora sertaneja sejam veneradas e reveladas aqui e alhures pelos séculos sem fim.

Uma última coisa: Não atribuam culpa, injustamente, aos espinhos de que eles são sinal de sofrimento. Alguns dizem que nos cactáceos, os espinhos, que na verdade são folhas modificadas, servem para diminuir a transpiração e a eliminação de água, possibilitando a espécie viver mais tempo em lugares áridos. Outros dizem que os espinhos dos cactos não evoluíram para punir os tornozelos dos entusiastas do ar livre.

Outros dizem que quando água e alimentos se tornam escassos, o cacto pode substituir os dois. Para se defenderem, essas plantas utilizam seus espinhos afiados e potentes para espetar os animais que tentam comê-las. Uma vez espetados, é provável que não tentem novamente. Animais que constroem seus abrigos nos cactos também utilizam os espinhos para se proteger de predadores pelo mesmo motivo. Por fim, arrisco dizer que uma espetada de vez em quando é sinal de que a dor intercede em nosso favor.                                                                

Publicação em agosto de 2014, revisada em fevereiro de 2020

Comentários

  1. Caatingueiro de Alma. Amigo João Neto Félix Mendes. Realmente escreve com uma delicadeza de "Alma ". "Paixão", por essa nossa linda Região. Sim, linda. Porque os "Visitantes ", podem quem sabe enxergar só a "Dureza de vida " do Sertanejo sofrido. Nós que somos da "Terrinha", sabemos onde encontrar suas belezas e riquezas. Tal qual meu amigo de infância descreveu nos seus escritos. Dá saudade só de lembrar. Obrigado por compartilhar. Deus, te use sempre mais Poeta João!

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  2. Viajei na crônica. Ao lê-la de olhos abertos e relê-la de olhos fechados. Parabéns João, pela bela transcrição. O texto é vasto e rico, que poderia servir de base para poemas e canções.

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  3. Adorei, João. A gente se delicia e viaja em sua apresentação calorosa e no seu olhar, olhos sertanejos, que a tudo o que o cerca, enxerga beleza, pois que vê através da alma da paisagem, dos seres viventes, do espetáculo da vegetação que forte, sobrevive ao calor e a estiagem, e se veste, verdinha, verdinha, forrando o nosso chão sertanejo. Sim, e obrigada por ter mencionado o meu trabalho e o meu nome. Parabéns! E, como dizem os mais jovens: arrasou!

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  4. Sinhô
    Lendo sua crônica “Sertão Transcendental” – edição revista, revisada, atualizada e emendada.
    O sabor é o mesmo porém mais pungente em razão dos “facheiros espinhosamente bonitos” (belo achado, essa frase). Suas flores de rasga-beiço – cheirosas e imaculadamente brancas, o cheiro do velame, da catingueira, me transportam para a infância, quando meu olfato ainda virgem de mulheres, de cigarros, de água ardente e de políticos pestilentos, tinha da natureza o virginal odor.
    Essa sua queda para o espinhoso, João Neto, já conheço e já lhe disse em outra ocasião, lembra Graciliano, falando sobre a obra de Breno: “A arte de Breno Accioly me faz pensar em coisas e figuras da terra onde nasceu: espinhosa, não se adapta a medidas, cresce fora da lei. Tem a bárbara firmeza do cangaceiro e a resistência do mandacaru.”
    Breno era mesmo um doce bárbaro, não acha?
    Finalmente a pergunta repetida e com felicidade feita: “pra que servem os espinhos?” E a resposta lógica: “protegem sua beleza e fragilidade”. Verdade.
    A flor do Pequeno Príncipe não achava outra utilidade neles :
    “É preciso que eu suporte duas ou três larvas se eu quiser conhecer as borboletas. Dizem que são tão belas! Do contrário, quem irá visitar-me? Tu estarás longe… Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras.
    E ela mostrou ingenuamente seus quatro espinhos”

    Abraços do velho Antônio Sobrinho
    Que venha à luz esse livro seu
    25.05.2020

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  5. Descrição maravilhosa! Não tem como não viajar na infância distante , de minhas férias e finais de semana sempre na minha querida Sementeira, aonde trilhava todos esses caminhos, sentia esses cheiros nas manhãs, o calor no correr do dia de sol escaldante e vê-lo se por tão brilhante e que até dos arranhões nos vários tipos de espinho, me trazem boas lembranças!

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  6. Depois de ler sua crônica, João, tão rica em cores e cheiros, só me veio à cabeça o que disse Guimarães Rosa: “Sou só um sertanejo, nessas altas ideias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração.” Parabéns!

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  7. Avelós...usei muito pra curar minhas verrugas;
    Urtiga...quem nunca esbarrou nela e começou a se coçar?
    Valeu JN, sertanejo véio!!!

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  8. Shirlei Vieira26/05/2020, 17:35

    Sempre muito sensível nas palavras e relatos! Emocionante texto, parabéns!

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    1. Bom dia Xará!
      Belo texto, na sua transcrição original.
      Parabéns

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    2. Obrigado Xará pela leitura e comentário.

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