Mil tons do ébano
Nem mesmo a lonjura e a rudeza do sertão foi capaz de conter o som que atravessava o rádio e chegava até mim, menino curioso do sertão alagoano. Meu pai, músico e ouvinte assíduo, era quem me guiava por essa diversidade sonora que se espalhava pelo ar. Foi assim que aprendi a valorizar cada estilo, cada timbre, cada batida; como se cada canção fosse uma janela aberta para mundos diferentes. A loja de discos da cidade era meu universo preferido. Entre prateleiras abarrotadas, eu buscava novidades, ecos dos festivais que agitavam a televisão e incendiavam plateias. E foi ali, perdido entre capas coloridas e nomes consagrados - anos depois -, que encontrei um artista desconhecido para mim. A voz era única, celestial, e sua musicalidade dissonante parecia desafiar tudo o que eu já havia escutado. As letras, fortes e intensas, falavam de escolhas e destinos. Era o mineiro Milton Nascimento. Soube depois que ele temia que sua ...



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